Segunda-feira, 10 de Março de 2008

Uma História

Eles eram alunos de secundário.

Desde o primeiro momento em que os seus olhares se cruzaram algo ficou a pairar no ar, ela não o via da mesma forma como a qualquer outro seu colega de turma. Ele era diferente, sentia-se incomodada com a sua presença…mas era um incómodo bom.

Passou o primeiro ano de liceu, chegou o segundo, a proximidade ía aumentando…algo dentro do seu peito ía aumentando, o bater do seu coração não era o mesmo sempre que ele aparecia.

 

Nas aulas.

Ele ficava na carteira logo atrás dela. Inesperadamente começou uma incessante troca de bilhetes. Bilhetes com coisas banais, palavras que por muito pouco sentido que fizessem, para eles faziam todo o sentido do mundo. Pequenos bocados de papel rasgados de alguma folha solta dos seus cadernos.

A vontade de se sentirem próximos um do outro era maior do que o receio de serem apanhados por algum professor.

O tempo foi passando, aquela troca continuou, a proximidade aumentou. Aquilo tinha de acontecer.

 

Último ano chegou, escreveram-se durante as férias, viviam perto, mas longe o suficiente para nunca se terem voltado a ver durante aqueles meses de Verão.

Os bilhetes, esses claro que recomeçaram e recomeçariam vezes e vezes sem conta, tudo para que aquela distância se fosse encurtando, tudo para se sentirem juntos, mesmo que fossem simples bocados de papel com simples palavras soltas.

Iam juntos para casa, aquelas viagens de autocarro por vezes pareciam intermináveis porém, por vezes, terminavam rápido de mais. De se sentarem ao lado um do outro até começarem a dar as mãos, foi mais um pequeno passo de entre tantos outros que deram juntos.

 

Nem tudo aconteceu de uma forma muito natural, existiram momentos em que ela tinha receio, receio do que iria acontecer, receio daqueles momentos que marcariam o resto da sua adolescência.

 

Aconteceu.

Aconteceu tudo rápido de mais para ela.

Aconteceu tudo muito devagar para ele. Não entendia que existiam momentos importantes de mais para serem levados daquela forma.

 

Todos viam que aquilo tinha de acontecer. Todos sentiam que eles juntos faziam todo o sentido. Todos ficaram felizes por verem que eles finalmente tinham formado um só.

 

A descoberta.

A descoberta do corpo, a descoberta de cada centímetro do corpo um do outro, a descoberta dos prazeres que cada um dos corpos proporcionava.

Era tudo novidade, os momentos eram passados a descobrir, a explorar, a experimentar-se um ao outro. Aquelas tardes que passavam fechados no quarto dele…

 

O tempo passou.

Faziam parte da vida um do outro, já não sabiam viver sem o outro ao lado.

 

O início do fim.

Conflitos começaram a acontecer. Porque ele queria ir jogar bilhar e ela não, porque ele fumava e ela não gostava…porque ela começou a não gostar de nada. Ela estava cansada de tudo.

 

“O amor é eterno até acabar”.

A primeira vez que se diz que se ama. Eles diziam-no sempre, começaram a dizê-lo sempre…passou a ser banal dizê-lo. Passou a ser dito já sem o sentimento realmente existir.

 

Tudo o que ela fazia, tudo o que ela dizia, era tudo perfeito aos olhos dele. Ele não lhe sabia dizer que não, era como se não tivesse vontade própria. Ele amava-a de mais, nunca a quereria perder, faria tudo para nunca a perder. Aquilo já não era amor, um amor normal e racional, passou a ser um amor obsessivo. Isso assustava-a.

Ela não conseguiu corresponder da mesma forma áquele amor, tentou falar-lhe quando percebeu que dentro do seu peito, o seu coração já não batia com a mesma intensidade, tentou explicar-lhe…ele chorou…mas nunca a deixaria, não imaginava a sua vida longe dela.

 

Ele não a deixou, o tempo foi passando, dentro dela já só restava resignação. Ele não a deixava. A resignação de continuar ao lado dele começou a não ser suportável, os sentimentos que se seguiram só a faziam sentir-se cada vez mais infeliz. Não conseguia voltar a amá-lo, também não o quereria… Já não suportava a sua presença, o seu toque. Não o conseguia tratar com a normalidade de outrora, ela não o suportava ao ponto de o humilhar em frente dos amigos, não o conseguia tratar bem, só queria que ele se afastasse, só queria acabar com aquilo tudo.

 

Ele não reagia, ele nunca reagia…estava bem assim com ela ao seu lado sempre e para sempre…até um dia.

 

 

Bastou um telefonema. Acabou. Voou até casa dela e novamente chorou nos seus braços.

Cada uma das suas lágrimas eram como que suspiros de alívio da parte dela. Finalmente aquele tormento tinha terminado. Estava esgotada.

Sentiu-se livre como há muito não o sentia. Sentiu-se renascer naquela tarde de Verão.

“Desculpa…”, ousou pensar ela, ninguém merece receber um presente daqueles de aniversário, mas ela é que se sentiu a aniversariante a receber o melhor dos presentes, a sua liberdade.

 

Os dias que se seguiram foram complicados para ele. Ela sabia que ele estava a sofrer, que estava desorientado, mas nunca mais pretendia saber dele.

 

Quando se ama alguém queremos ver essa pessoa feliz. Ele não entendia que ela só seria feliz longe dele. Se a amava tanto deveria perceber que ela queria espaço, que ele tinha de se afastar, que ela queria apenas sentir-se feliz. Ele estava a torná-la miseravelmente infeliz.

 

Uma chamada não atendida, uma mensagem de voz. Estava ao pé de água, que ía entrar…entrou. Ela não quis saber…

 

Alguém o salvou…alguém não o deixou sucumbir naquelas águas. Ele queria ter morrido, mas alguém não deixou. A revolta apoderou-se dele.

 

Todas aquelas noites de pesadelos com ele terminaram, pesadelos em que ele a perseguia, em que ele lhe aparecia a cada instante, tudo terminara.

 

O tempo passou, o tempo cura mesmo a mais das dolorosas feridas.

Ela voltou a apaixonar-se…ele voltou a apaixonar-se…

publicado por RedGirl às 09:06

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3 comentários:
De Infiel a 12 de Março de 2008 às 02:16
Ola Ana

Obrigado por teres adicionado o meu blog

Afinal já és licensiada??? não encontrei a resposta nos posts seguintes...

Gostei dos teus poemas e historias
esta última... tocou-me pessoalmente

De RedGirl a 12 de Março de 2008 às 09:09
Já sou licenciada, ao fim de muitos exames e de muitas dores d cabeça...
Esta história é bem real, mas tentei contá-la d uma forma bem leve.

Beijos e volta sempre
De Infiel a 13 de Março de 2008 às 00:46

parabens!!
Exames e dores de cabeça que já passaram!! agoa é outro degrau, muitas felicidades!!

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